Paulo Rosenbaum, médico, mestre e doutorando em Medicina Preventiva na FMUSP

A mais nova polêmica envolvendo a homeopatia ficou por conta da revista científica britânica The Lancet, Vol. 366, agosto de 2005. Nele se reproduz o estudo da Universidade de Berna, Suíça, que colocou em suspeição uma série de outros estudos que afirmavam a resolutividade clínica da homeopatia em determinadas patologias. A repercussão à distância de uma das publicações mais prestigiadas do mundo médico-científico recaiu de novo sobre a homeopatia com impacto igual ou superior à crítica da Nature em 1988 acerca dos mecanismos de ação dos medicamentos homeopáticos.

É claro que o texto é munição eterna para os que já estavam determinados apriorisiticamente a atacar a homeopatia e isto influencia desproporcionalmente o ambiente de seriedade e respeitabilidade que estamos a duras penas tentando conquistar. Sem a menor dúvida isto vai influenciar os órgãos fomentadores assim como municiará os opositores do projeto de PNMNTC- Política nacional de medicinas naturais e terapêuticas complementares, recentemente encaminhada ao Ministério da Saúde do Brasil.

Um outro aspecto é que agora pela qualidade da fonte de ataque será necessário mais do que inspiração para explicar porque os testes de eficácia usualmente falham. A pergunta é: será que pesquisas do tipo ensaio clínico com um desenho epidemiológico pré-formatado para mensurar resolutividade clínica de patologias podem aferir corretamente se a homeopatia é ou não eficaz. A cada vez que resultados de estudos como ensaios clínicos homeopáticos vêm à tona ficava-se dividido: que bom para a pesquisa, mas que sacrifícios complicados há que se fazer para ter tal aval. E por fim a inevitável pergunta: valeu mesmo a pena?

Pesquisas de coorte ou estudos populacionais seriam uma solução, talvez. Mas é provável que necessitem de tal verba para custeá-las que, sejamos sinceros, nenhum laboratório homeopático e até aqui nenhum Estado esteve disposto a bancá-las. As patogenesias – de relativo baixo custo — mostrariam que há possíveis reprodutibilidades, mas jamais poderiam avaliar a terapêutica. Resta-nos pesquisar em estudos maciços de QVS (qualidade de vida em saúde) que permite aferir individualmente o que um acompanhamento homeopático pode fazer no médio prazo. A Professora Titular do Instituto de Medicina Social da UERJ, Madel Luz, vem colocando que um modelo de pesquisa baseada no sujeito, nos moldes propostos pelas ciências humanas, e que implicasse num acompanhamento da trajetória deste, ainda estava por ser montado pelos homeopatas.

Destarte, a solução já está em processo de maturação: ao usar procedimentos interpretativo-compreensivos, típicos das ciências humanas (pois em geral as ciências naturais são naturalmente avessas as singularizações) tendo a linguagem como referencia fundamental para avaliar o conjunto humano, poder-se-á ajudar a validar o saber médico da homeopatia sem usar a referencia nosográfica como o norte absoluto de seu sucesso terapêutico. Além disso, segundo a hermenêutica a linguagem pode ser tematizada como um mundo de signos cujo modelo foi fornecido pelo sucesso científico das linguagens simbólicas que foram desenvolvidas pela matemática. Em nosso século o pensamento filosófico deu novos passos ao perceber que não é somente razão e pensamento que estão no centro da filosofia, mas a própria linguagem.

Ao mesmo tempo, precisamos descaracterizar que a homeopatia é apenas a prima pobre da biomedicina e que nosso problema resume-se em falta de verba para pesquisas. Esta nos faz muita falta. Mas sem um consenso mínimo e um criterioso estudo de quais são as prioridades receio que seríamos derrotados pela realidade. Outra coisa que precisamos urgentemente descaracterizar é a voracidade midiática por uma experiência crucial que provará ou condenará definitivamente um sistema de idéias. Trata-se de uma aberração, pois como Canguilhem fez notar experimentos cruciais só são reconhecidos como tais, décadas ou séculos adiante.

A homeopatia teria muito a ganhar se construísse alianças mais amplas com racionalidades e saberes pós-mecanicistas.

Mas antes de tudo, é necessário se antecipar na auto-critica.
O editorial do The Lancet decerto extrapolou, mas ele também pode ser dialeticamente visto como uma resposta aos que pregam uma estranha e contraditória hegemonia homeopática. Foi torpe e verdadeiramente afrontador o editor encomendar o “O Fim da Homeopatia”, mas, vamos apontar onde esta o torpe em nós mesmos: na crença fanática da homeopatia como ideologia médica. Esta é uma verdade com a qual temos que nos deparar agora ou mais tarde, ou tarde demais. Quando se afirma que a homeopatia tem consistência científica e precisão matemática e muitos aplaudem ou silenciosamente consentem, então alguém tem que provar isso. E segredo: garanto que não há quem possa.

A homeopatia deve se assumir como uma medicina em
processo de transição que busca um outro tipo de precisão, um outro tipo de resolutividade, um outro gênero de efetividade. Do contrário, terão eterna razão aquelas que cobram dela a precisão exigida nos moldes das ciências naturais. E, creiam, eles aparecerão periodicamente.

Deve-se traduzir tudo que o se produz pois faz parte do desencasulamento — num pais que têm hoje talvez o maior número de homeopatas no mundo — projetar suas respostas adiante das barreiras lingüísticas. Se isto não for feito por nós mesmos, nem pela homeopatia, que se faça pelos usuários. Pois de novo eles representam o lado mais frágil na perversa cadeia que se cria com as assimetrias na informação.

A história da humanidade — entendida como cultura ou civilização — pode ser também compreendida como a busca de consensos lógicos. Quando falamos em consensos, em outras palavras, queremos afinal já dizer da sua quase impossibilidade, vale dizer que a história das ciências é tanto longa como conturbada. Muitos pensamentos e projetos científicos, entre os quais muitas formas inteiras de ciência e filosofia feneceram porque – como explicou certa vez Max Planck – desapareceram seus defensores. Há ciências mais estabelecidas e sistemas em amadurecimento, há ciências duras e ciências do espírito. Epistemologias semi-acabadas e outras em construção. Há, portanto várias formas de consensos e inúmeras racionalidades. Esta é a raiz da diversidade de escolhas e de métodos.

Claro que houve, no entanto uma época que não havia espaço para a razão dialógica (a que brota ou emerge dos diálogos), pois a natureza pertencia aos monarcas e a razão era controlada pelo tino de concílios eclesiásticos. Época de grande perigo, tanto literal quanto visceral. Pensadores e cientistas pensando em sobreviver, prudentemente migravam, quando podiam, para longe das fogueiras. A ditadura exercida por quase 400 anos tinha o admirável poder de permitir ou inibir pensamentos e migrou de forma relativamente célere do santo ofício para um outro tipo de poder: as instituições do saber. O positivismo construiu então o superparadigma mais duradouro dali em diante: o das pesquisas empíricas com reprodutibilidade como suporte fundamental para qualquer tipo de teoria científica.

Chegamos ao nosso tempo assim. Mas as universidades prepararam uma surpresa e se tornaram interessantes abrigos também para a diversidade. Tornaram-se foco aberto, acolhendo racionalidades que não sendo hegemônicas, vem desafiando aquele monopólio metodológico em que a quantidade e a necessidade de reprodutibilidade universal governavam a cena. Por tudo isto, constato estranhos excessos no editorial do jornal científico The Lancet. O título de seu editorial encontrou o papel desprevenido por tamanha ousadia. A arrogância impetrada neutraliza supostos álibis, pois nele vaticina nada menos que “O fim da homeopatia”. Ora, sem dúvida é o fim, mas não sei exatamente se é da homeopatia.

Quando se determina o “fim” é necessário estar ciente das repercussões. A título de hipótese, o que significaria o fim da homeopatia? Uma dor de cabeça a menos para o cientificismo? Os problemas gerados pela dúvida insolúvel do efeito placebo versus efetivo processo farmacêutico do verum? Acabaria com as disputas em torneios terapêuticos? Amenizaria as dificuldades para validação de fármacos? Atenuaria o sofrimento de pacientes, pessoas que sofrem? Elucidaria de alguma forma o problema da necessidade de atendimentos personalizados, centrados nas pessoas? Determinaria por fim uma nova era onde a autocrítica predominaria sobre convicções? Protegeria enfim enfermos de uma terapêutica que apesar da tradição e dos aportes trazidos como enriquecimento para a arte médica é acusada de perigosamente inócua?

O que quer a sociedade afinal? Acreditamos que ela quer ser ouvida. Isto porque tínhamos a verdadeira esperança que estávamos no fim da era em que uns são mais iguais que outros. Cogitávamos que afirmações concludentes em contextos de “certezas absolutas” estavam sendo substituídas pela prudência do “não sabemos”. Pode ser, admito, que idealizamos nosso tempo e a realidade está aí para nos confrontar. Mas tudo que vejo em pessoas de carne e osso me remete a indícios otimistas. Apagados. Esmaecidos. Toscos. Mas ainda assim otimistas.

Pois afinal o que a sociedade quer é que a ciência e a medicina lhes dêem cura e suporte, apoio e explicações, tecnologias e sentidos. Enfim as pessoas querem poder viver em estados pelo menos próximos aos da felicidade como arriscava, em tom ao mesmo tempo risonho e maroto, o geógrafo Milton dos Santos. As pessoas desejam que alguém as ouça que alguém se importe com o que narram, que alguém lhes anote o discurso. As pessoas desejam que os médicos com apoio de cientistas lhes dêem mais do que uma só perspectiva. Os que são enfermos não desejam ser enganados assim como não desejam a verdade nua e crua sob a forma de diagnósticos que lhes tiram tanto o ânimo como a vida. Os doentes, especialmente os crônicos, querem afinal uma solução. Mas, é preciso que se diga, nem sempre a temos. Destarte, se não temos a solução temos outro tipo de trunfo, que cedo ou tarde será descoberto como patrimonial: oferecemos a disposição para cuidar e paciência quase sobre-humana para persistir.

Eu reitero o excesso do editor daquele periódico de não fazer juz, por exemplo à Hufeland (quiçá nem a história do próprio The Lancet que na sua primeira edição em 1823, publicou um estudo sobre acupuntura feito pelo médico John Elliotson), médico e fundador do jornalismo médico que numa época de confusões em medicina não menos graves das que hoje vivemos, publicou sujeitos como Samuel Hahnemann e Emmanuel Kant, sendo o primeiro em início de carreira e ainda aplaudindo a perspectiva ao novo que ali se abria. Eu acuso o editor de fazer o jogo da mesmice e não ter arriscado benevolamente sua reputação ao ter colocado a premio a respeitabilidade de uma ciência que é arte. Arte que está bem acompanhada por toda a boa clínica seja ela alopática, homeopática ou de qualquer outro matiz, desde que feita com consciência e cautela.

O jogo do editor britânico apontou precocemente para o meio de campo sem que nenhum gol tivesse sido consignado à sua equipe. Seu juízo foi enganado pela sua fome, e isto, como se sabe, é solo fatal para o conhecimento. Digo isso pois se ao menos arriscasse seu cargo teria ficado afinal com sua dignidade e assim poderia ter dito que a partida mal começou e que o fim, de tão longínquo, não era acessível ou palpável, mas – para acalmar ânimos — que a ciência é assim mesmo. Que o provem entre outros Charles Darwin, Sigmund Freud, Albert Einstein, Judah Folkmann ou Jacques Benveniste.

Fica a sensação de que este editor procedeu a uma manipulação da opinião pública científica, pois ao dar aval e conceder estatuto de experiência crucial (aquela que em geral prova ou refuta definitivamente uma tese ou teoria) a uma pesquisa sofrível e incompleta colocou sob insuspeita insuficiência seus próprios critérios de escolha e de avaliação de artigos.

Eu acuso o editor da The Lancet e todos os comensais que se jactaram de um banquete ainda não servido, de desejarem ser uma espécie de Orson Wells da mídia científica ao encomendar o fim da homeopatia. No entanto a afônica destemperança denotou falta de talento. O alívio, vale dizer, a redução de dano, é que o público para o qual se dirige pode ser acusado de muitas coisas menos de acrítico, e, portanto, ao fim e ao cabo creio que não festejariam de antemão a vitória sem o ônus de uma prova completa. Ao se darem conta que a pesquisa era apenas uma revisão manipulada de metanálises os bem pensantes da ciência, mesmo os que não suportam a homeopatia, cogitarão duas vezes em citá-la como fonte. Malgrado isto não significa que foi mal divulgada. Pelo contrário: os interesses ignotos dos formatadores da opinião alheia não podem ser jamais subestimados.

Mas olhemos também para o outro lado. Desloco-me para onde a acusação poderia ser sublimada. Agradeço assim ao staff científico do referido periódico por ter mostrado para nós homeopatas que a necessidade de união deveria superar definitivamente quaisquer rusgas teóricas, doutrinárias ou mesmo práticas que tenhamos. Por último por ter indiretamente evidenciado que há publicações que apresentam ou uma independência apenas vigiada ou uma espécie de auditor interno que redige conclusões e editoriais.

Mais um último motivo para que o dossiê Lancet seja reconhecido pelos serviços prestados está na indicação, involuntária, do tipo de caminho que deve trilhar a pesquisa homeopática se quer, efetivamente, chegar a algum lugar. Agora, como vimos, afirmar uma precisão não possuída, aspirar um controle que tenha uma correspondência no coeficiente empírico favorável para derrotar patologias pontuais é um enfoque risível. É pisar firme, vale dizer, marchar incauto e sem mapa em campo minado. Sabemos das complexidades epistemicas da homeopatia e de sua vulnerabilidade crônica frente às cobranças por validação empírica. Por isso mesmo homeopatas não podem mesmo persistir em afirmar resolutividade matemática de patologias assim como as pesquisas da biomedicina (para entender de suas vulnerabilidades aliás recomendo que se consulte a excelente e corajosa crítica do médico Jerry Avorn “FDA Standards — Good Enough for Government Work?” publicada no Volume 353:969-972, September 8, 2005, no Number 10, New England Journal of Medicine) não podem exigir que se faça isso em um modelo que é essencialmente centrado no sujeito e não só na patologia. Se houvesse a mínima isonomia jornalística na mídia científica, todos os sistemas científicos estariam então condenados. A pesquisa científica é, por princípio, teste de hipóteses, com erros e acertos, na busca do novo, em benefício da maioria.

Eu acuso por fim a nós mesmos, pesquisadores e médicos como sujeitos de nossa própria inércia. Reclamo de nossa paralisia e do brutal desengajamento frente ao nada sábio estoicismo com que suportamos a truculência e a brutalidade das desconstruções. Se há alguém isento da acusação são pessoas que, como alguns colegas recém afirmaram, jamais lerão o editorial do The Lancet, nem verão o programa Fantástico, nem ouvirão o Jornal Nacional, BBC ou CNN, nem lerão O Globo, New York Times ou Clarin não receberão informes da Agencia Estado ou Reuters, nem folhearão a revista Veja, ou Newsweek, não ouvirão as Rádios, não observarão os Blogs da Internet. São pessoas que não acusaram o recebimento de nenhuma informação: pacientes reais, seres que sofrem. Deles, não só nada pode ser cobrado, como, acredito, devemos as nossas mais sinceras desculpas.


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