Após mais de dois séculos de sua criação, a homeopatia continua a gerar controvérsias no meio médico e a ganhar novos adeptos e opositores que sustentarão a polêmica no século XXI. A homeopatia – saber racional e arte de curar – desperta loucas paixões e sábias razões entre os que a discutem. Céticos que desprezam a homeopatia por não achá-la consistente com suas crenças se contrapõem a fanáticos que crêem ser a homeopatia a única solução terapêutica para os males da humanidade. Argumentos fundados em observações e experimentações controladas se misturam a vivências e experiências clínicas que somente podem ser devidamente valorizadas pelos que atuam no encontro clínico. Ensinamentos escritos de professores de farmacologia que afirmam ser a homeopatia uma terapêutica que não passa de mera placeboterapia, sem porém informar as fontes que sustentam tal conclusão, têm sido transmitidos de modo leviano às gerações de estudantes.

A universidade, por alguns tida como templo do saber e por outros como espaço de construção crítica e criativa de uma parcela do conhecimento humano, é o espaço por excelência para o debate de idéias, hipóteses e produtos que possam vir a contribuir para o crescimento das pessoas e da sociedade. Na concepção de universidade enquanto templo do saber fica implícita suas possibilidades de dogmatismo, arrogância e perspectiva autocentrada de núcleo irradiador dos saberes humanos; em sua perspectiva de usina geradora de idéias e produtos para o benefício da sociedade, de forma não-hegemônica, apreende-se a perspectiva de flexibilidade, humildade e abertura permanente à realidade externa e a novas formas de conhecimento.

A homeopatia, enquanto conhecimento médico aplicado existente há mais de 200 anos, tem merecido ainda uma insuficiente atenção por parte da comunidade universitária. Criada dentro de um espírito experimental, a homeopatia tem sido em algumas oportunidades sistematicamente rejeitada pelo corpo oficial das universidades, particularmente das escolas médicas. Oficializada no Brasil como especialidade médica pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) há 20 anos, seu ensino optativo em escolas médicas brasileiras (EMB) não atinge ainda 5% das escolas médicas. Paradoxalmente, levantamento realizado pelo CFM em 1996 aponta a homeopatia como a 16a especialidade em número de praticantes no país. A implantação do atendimento homeopático na rede pública de saúde, apesar de normatizada em nível federal desde 1988, ainda tem sido muito tímida. O desenvolvimento de linhas consistentes de pesquisa em homeopatia praticamente não se efetivou, exceto nas áreas de história sócio-institucional, experimentação patogenética e lógica clínica homeopática. Quais as razões para o fato? Por que não se observou um crescimento proporcional ao de profissionais especializados na oferta do ensino da homeopatia aos alunos de graduação em EMB?

Por que tamanha dificuldade em abrir as portas para que se pesquise seriamente a homeopatia, uma especialidade médica reconhecida tanto pelo CFM como pela Associação Médica Brasileira? Estaria associada à grande incerteza que ainda permeia a questão da eficácia da homeopatia, à inexistência de provas mais aceitáveis de que ela funciona? Se esta fôr a resposta, há que se tomar cuidado na sua verdade pois a curiosidade científica busca investigar aquilo que menos se conhece, onde há mais incerteza. Ou poderia ser uma questão relacionada a status e prestígio pessoal no meio científico? Há algum tempo, pesquisadores respeitados evitavam se vincular a pesquisas em homeopatia com receio da opinião negativa dos seus pares ao vê-los envolvidos num assunto considerado de menor relevância acadêmica por significativa parcela da comunidade científica, ou até como embuste ou charlatanismo por outros. Ou, talvez, medo dos próprios homeopatas de submeterem a sua própria prática profissional a uma avaliação científica criteriosa com resultados incertos?

O ônus da prova cabe exclusivamente aos adeptos da homeopatia? Acreditando que a iniciativa deve ser tomada pelos profissionais homeopatas e que a responsabilidade é do meio acadêmico como um todo, há que se reconhecer porém que poucos homeopatas têm evidenciado atitudes concretas de aproximação com pesquisadores em universidades propondo projetos de investigação bem construídos e viáveis. O apoio financeiro da indústria farmacêutica homeopática à pesquisa é mínimo, se comparado em termos de recursos ao das indústrias farmacêuticas tradicionais. Agências governamentais de fomento à pesquisa negaram no passado financiar a homeopatia sob o argumento de que não tinha base científica, como aconteceu com a Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) em 1991 ao ser solicitada para financiar o III Simpósio Nacional de Pesquisas Institucionais em Homeopatia, realizado em Uberlândia (já o CNPq aceitou e financiou parte do evento). Caso não seja rompido, o círculo vicioso se repete: insuficiente nível de evidências sobre a eficácia da homeopatia induz pesquisadores céticos que julgam projetos na área homeopática a rejeitá-los, inibindo assim a produção de novas evidências que poderiam facilitar (ou não) a aprovação de futuros projetos. Sem recursos financeiros, boas idéias e projetos de pesquisa na área homeopática têm sido abortados precocemente.

A visão histórica do surgimento e crescimento da homeopatia ao longo dos dois últimos séculos, em vários lugares do mundo, pode iluminar o melhor esclarecimento da questão. Hahnemann, ao criar a homeopatia, adotou uma clara postura de rejeição ao conhecimento médico da época e, compreensivelmente, de defesa intransigente de sua nova proposta terapêutica. Em 1792, ainda antes de publicar o seu artigo sobre o princípio da semelhança, Hahnemann criticou duramente os médicos e as práticas usadas (quatro sangrias em um dia) no atendimento ao imperador Leopoldo II da Áustria em artigo no “Der Anzeiger”. Sua natureza crítica e compassiva com o sofrimento dos doentes, associada à sua insatisfação com a prática médica convencional, fizeram de Hahnemann um desafiador da ortodoxia médica como bem atesta a carta abaixo, endereçada em 1808 ao editor do Allgemeiner Anzeiger e publicada no número 343:

“Refutem, eu grito para os meus contemporâneos, refutem estas verdades se puderem, propondo uma ainda mais eficaz, certa e agradável forma de tratamento que a minha – e não a combatam com meras palavras, das quais nós já temos excesso. Porém se a experiência mostrar a você, como fez a mim, que o meu modo é o melhor, então faça uso dele para o benefício, para a libertação da humanidade, e conceda a glória a Deus”
A perspectiva separacionista entre homeopatia e alopatia originou-se do próprio Hahnemann, ao cunhar os termos alopatia, homeopatia e enantiopatia com o preciso interesse de diferenciar sua prática terapêutica da prática dominante, à qual associava com especulações teóricas e procedimentos sem uma base racional, com mais malefícios do que benefícios. O enfrentamento inicial entre defensores e opositores da homeopatia era, pois, plenamente justificável dadas as condições históricas de sua implantação.

No Brasil também não foi diferente, servindo frequentemente os veículos de comunicação de massa como palco de polêmicas entre médicos defensores e opositores da homeopatia. Debates frequentemente estéreis, polêmicas infindáveis, disputas pelo domínio de clientela, defesas intransigentes e cegas de posições se sucederam e criaram um clima de desconfiança e antagonismo entre médicos homeopatas e alopatas. Este clima foi levado às academias e escolas médicas, dificultando ainda mais a implantação do ensino da homeopatia. Paralela à perspectiva de separação entre as duas práticas, instalou-se uma visão mútua de superioridade que, ao invés de reconhecer pontos em comum para o progresso da medicina e benefícios para os doentes, dirigiu-se para a criação de fossos ainda mais profundos entre os médicos-acadêmicos (sediados nas EMB) e os médicos homeopatas (fechados em suas clínicas).

Com o reconhecimento da homeopatia como especialidade médica e a formação especializada de milhares de médicos com uma visão mais aberta e crítica da prática profissional, iniciou-se um processo crescente de aceitação preliminar da homeopatia, talvez pelo respeito à honestidade e competência dos seus praticantes enquanto profissionais não-homeopatas. Levantamento realizado com 54 professores de medicina em 1993 mostrou que a maioria, apesar de admitir baixo nível de conhecimento sobre a homeopatia, considerava a homeopatia como uma terapêutica útil e que deveria ser ensinada nas EMB . O contato direto com médicos homeopatas se constituiu na fonte principal de informação sobre a homeopatia para a maioria dos entrevistados (50%), seguida de livros (13%), artigos em periódicos médicos (9%), artigos em revistas populares (7%), informações de pacientes ou familiares em tratamento homeopático (7%).

A entronização da homeopatia em EMB ainda caminha de forma lenta e assistemática. Obstáculos como a resistência de alguns professores (particularmente das áreas de farmacologia e doenças infecciosas), insuficiência de recursos humanos qualificados e titulados para o exercício da docência universitária, currículos inflacionados e com pouca disponibilidade horária para inclusão de novas disciplinas, entre outros, precisam ser superados para a implantação da homeopatia. A criação de ambulatórios em hospitais de ensino, com a vivência do atendimento de doentes, parece ser uma via privilegiada para a futura criação de uma disciplina de homeopatia. Observados pelos pares, e avaliados pelos doentes, os profissionais homeopatas têm uma oportunidade de mostrar os benefícios da homeopatia ao mesmo tempo que demonstram a possibilidade de um convívio salutar e integrado aos serviços médicos em geral.

Outro ponto crítico diz respeito aos profissionais responsáveis pela docência homeopática. Profissionais críticos, conhecedores de metodologia científica e capazes de inovar metodologicamente para gerar novos modelos de avaliação de uma prática médica individualizadora como é a homeopatia, que rejeitem atitudes de superioridade e sectarismo e com alta capacidade de diálogo interdisciplinar, devem ser ativamente buscados para ocupar posições universitárias. Argumentos éticos infundados têm sido levantados para dificultar o uso da homeopatia em hospitais de ensino e os docentes em homeopatia devem estar preparados para refutá-los apropriadamente. Lideranças esclarecidas e construtivas, que saibam trabalhar com posicionamentos diferentes dos seus, são absolutamente necessárias para o sucesso de qualquer projeto de ensino universitário da homeopatia.

Em relação ao possível ponto central da não-aceitação da homeopatia em ambientes acadêmicos – eficácia terapêutica cientificamente provada – há que se admitir que as evidências produzidas até o momento são insuficientes e, embora favoráveis no conjunto, não permitem conclusão definitiva. Quatro metanálises ou revisões sistemáticas sobre homeopatia ,,, foram divulgadas até agora sendo que três mostraram que há ligeira superioridade de medicamentos homeopáticos sobre o placebo. A última delas, publicada no Lancet em 1997, seguiu idêntico padrão de todas as metanálises e incluiu estudos randomizados controlados (ERC) que abrangiam problemas clínicos diversos – gastrites, dermatoses, rinite alérgica, verrugas, cãibras, síndrome da tensão pré-menstrual, enxaqueca, entre outros.

Embora tais metanálises possam apontar indícios de eficácia, numa perspectiva geral são pouco poderosas para revelar a eficácia da homeopatia numa dada condição ou problema clínico, o que seria muito útil. Duas metanálises sobre problemas específicos – a respeito de problemas respiratórios alérgicos e sobre íleo adinâmico pós-cirúrgico – foram publicadas com resultados que favorecem a homeopatia. Recentemente foi publicado um outro estudo que evidencia a eficácia de preparações homeopáticas de alergenos em altas diluições no tratamento da rinite alérgica, individualmente ou ao se fazer a síntese dos quatro estudos realizados pela mesma equipe ao longo dos últimos anos numa amostra de 253 pacientes. Entretanto, ainda há muito a ser feito para evidenciar de forma clara que a homeopatia seja eficaz para a maioria dos problemas clínicos em que é atualmente empregada. Novos ERC com qualidade feitos sobre problemas clínicos simples e de elevada freqüência deveriam ser realizados nos centros universitários mediante apoio de instituições governamentais de amparo à pesquisa.

A avaliação de tecnologias terapêuticas de uso médico tem sido marcada por uma tensão entre a aplicação de estratégias fundadas em modelos biomédicos – enfatizando eficácia, significância estatística e análise de grupos – e o uso de estratégias baseadas em modelos humanísticos (ou biopsicossociais) que privilegiam a efetividade, a relevância clínica e a análise de resultados individuais. As duas estratégias são importantes e ao mesmo tempo complementares: o ser humano é concomitantemente semelhante a todos os outros seres humanos (validando portanto o modelo biomédico) e diferente de todos os outros seres humanos (validando portanto o modelo humanístico ou biopsicossocial). A homeopatia se situa na encruzilhada dos dois modelos, e requer para a sua adequada avaliação um aprimoramento metodológico que contemple a sua racionalidade médica específica. Para tanto, temos o dever de colaborar na construção de novas abordagens metodológicas, em parceria com áreas interdisciplinares e com necessidades semelhantes, o que somente pode ser conseguido em ambientes universitários.

A homeopatia pode e deve ser avaliada. E a universidade – com seus laboratórios, cérebros privilegiados, bibliotecas, ambulatórios e hospitais – é o locus institucional por excelência para realização de pesquisas rigorosas, de excelente qualidade e centradas em produtos socialmente úteis. O estudo da homeopatia sob os seus aspectos médicos, farmacêuticos, físico-químicos, sociais, antropológicos, históricos e econômicos, entre outros, abre uma via de enriquecimento da produção acadêmica comprometida com um melhor conhecimento da nossa realidade. É inadiável um esforço conjunto de demonstração da efetividade da homeopatia para os problemas de saúde nos quais tem sido correntemente indicada no país, coerente com o desiderato de Hahnemann de criar uma nova prática médica, efetiva e racional, baseada em provas e não em simples especulações teóricas. O acúmulo de evidências confiáveis sobre a eficácia, efetividade e segurança do tratamento homeopático nos diversos problemas de saúde para os quais é indicada é fundamental para que a comunidade médica se convença de sua utilidade e da necessidade de ensiná-la aos futuros profissionais.

Há que se quebrar, para sempre, a perspectiva de separação e de exclusão entre práticas profissionais baseadas em princípios diferentes, como são a alopatia e a homeopatia, e reconhecer que se trata de campos concorrentes mas complementares. O ensino da homeopatia revitaliza a prática de uma medicina centrada no doente, reforça a necessidade de uma anamnese mais detalhada que permita efetivamente explicar as doenças e compreender os doentes e estimula os alunos a pensar criticamente e estarem abertos para novas possibilidades terapêuticas e que sejam eticamente justificáveis.

Ainda resta muito a aprender, desenvolver e fazer do ponto de vista de construção do conhecimento homeopático. Apesar dos inegáveis avanços, muitas questões continuam ainda sem respostas. É indispensável que a universidade participe ativamente do processo de construção do saber homeopático, comprometida unicamente com a verdade e com o bem-estar da sociedade. Se a homeopatia é uma promessa consequente de ser uma terapêutica socialmente apropriada à nossa realidade, em termos de efetividade, custo, segurança, disponibilidade de insumos básicos e viabilidade operacional, então cabe à universidade assumir o compromisso de investigá-la de forma rigorosa e profunda. Para tanto, há que se acercar ao objeto de estudo, construir com ele alianças para melhor observá-lo e permitir que barreiras sejam superadas para o estabelecimento de um verdadeiro diálogo de mentes livres, corajosas, criativas e críticas.

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