Assim como cataclismos assolam o planeta freqüentemente, a homeopatia também é vítima de investidas periódicas contra seus peculiares pressupostos científicos, carentes de estudos e comprovações contundentes, sobrevivendo aos escombros de tais catástrofes graças ao reconhecimento popular que esta prática terapêutica vem conquistando ao longo dos tempos.

Após tsunamis, terremotos e furacões, faz-se imprescindível o reconhecimento dos pontos suscetíveis das regiões atingidas e a mobilização de esforços para que medidas de contenção e prevenção destes fenômenos avassaladores possam ser planejadas e executadas. De forma análoga, precisamos reconhecer a fragilidade da pesquisa em homeopatia, tanto na quantidade quanto na qualidade metodológica dos estudos, fruto do desinteresse e despreparo da classe homeopática perante os avanços da ciência contemporânea, como a verdadeira suscetibilidade aos constantes ataques desferidos ao modelo científico homeopático. Isto pode ser facilmente constatado quando observamos o teor das críticas e preconceitos desferidos contra a acupuntura, comparativamente menor àqueles relacionados à homeopatia, em vista do número expressivamente maior de trabalhos científicos produzidos naquela área, apesar destas racionalidades médicas apresentarem modelos vitalistas semelhantes e “injustificados” perante o modelo científico dominante.

Como medidas de prevenção ao fenômeno The Lancet, deveríamos aproveitar estes movimentos depreciativos exteriores como meio de estimular a vitalidade do movimento homeopático brasileiro no sentido do desenvolvimento de protocolos científicos cada vez mais aperfeiçoados e condizentes com a episteme homeopática, ao invés de utilizarmos condutas paliativas ao mal maior, negando nossa inoperância científica e contentando-nos com o papel de vítimas indefesas do poderio macroeconômico da indústria farmacêutica. Como medidas de contenção aos efeitos danosos que as críticas ao modelo homeopático podem resultar, devemos avaliar se as “evidências” levantadas respeitam as peculiaridades do paradigma homeopático, informando e esclarecendo a população e a classe médica sobre as possíveis intenções escusas e os erros sistemáticos implícitos.

Em qualquer questionamento científico, devemos sempre frisar que a homeopatia se fundamenta em princípios distintos da medicina convencional, utilizando o princípio de cura pela similitude ao empregar doses infinitesimais de substâncias que, ao terem sido experimentadas previamente em pessoas sadias, apresentaram sintomas semelhantes aos do indivíduo doente. Na aplicação terapêutica destes pressupostos, valoriza a “individualidade humana”, selecionando dentre os milhares de substâncias experimentadas aquela que englobe a “totalidade de sintomas característicos de cada paciente” (nos aspectos mentais, gerais e clínicos), elegendo, para um mesmo tipo de doença, medicamentos distintos para cada indivíduo enfermo.

Com o conhecimento aventado pelas ciências modernas (física, físico-química, fisiologia, farmacologia, imunologia, epidemiologia clínica, etc.) adquirimos ferramentas que permitem validar as inovações do modelo hahnemanniano perante o paradigma científico moderno. Em vista disto, estudos nas áreas da pesquisa básica e da pesquisa clínica vêm procurando fundamentar os inusitados pressupostos e a prática clínica homeopática (1) e, apesar da proposta do “princípio de cura reacional” (princípio de cura pela similitude) vir despertando interesse crescente na racionalidade médica contemporânea, (2-6) causa estranheza ao pensamento cartesiano o fato das ultradiluições homeopáticas (em concentrações inferiores ao Número de Avogadro) produzirem sintomas em organismos vivos, fazendo com que se comparem os efeitos “inexplicáveis” do medicamento homeopático ao “efeito placebo”.

Dizendo-se interessados em estudar a relação dos efeitos clínicos do tratamento homeopático com o efeito placebo, Shang e cols. (7) publicaram recentemente no The Lancet um estudo comparativo entre ensaios clínicos homeopáticos e alopáticos placebo-controlados. Pareando 110 ensaios homeopáticos com 110 ensaios alopáticos segundo as mesmas doenças e os mesmos tipos de resultados (efeitos específicos), os autores classificaram os estudos segundo “critérios de qualidade metodológica clássicos” (número de participantes envolvidos, método de randomização, aplicação do método duplo-cego, tipo de publicação, cálculo do Odds ratio, etc.), se propondo a avaliar como os erros sistemáticos (vieses) na condução e na descrição dos estudos poderiam interferir na interpretação final dos resultados.

Numa primeira análise geral de todos os ensaios clínicos levantados, a maioria de baixa qualidade metodológica segundo os critérios anteriormente citados, os autores observaram que tanto a homeopatia quanto a alopatia mostraram sua efetividade perante o placebo (semelhante a metanálise de Linde e cols. (8) publicada no mesmo The Lancet em 1997). Entretanto, quando os erros sistemáticos foram valorizados, selecionando para análise apenas os “estudos de maior qualidade metodológica clássica”, escolhidos segundo o critério do “número de participantes envolvidos” (8 ensaios clínicos homeopáticos versus 6 ensaios clínicos convencionais), os resultados mostraram fraca evidência para um efeito específico dos medicamentos homeopáticos e forte evidência para os efeitos específicos de intervenções convencionais. Partindo da premissa que os efeitos específicos das ultradiluições homeopáticas são “implausíveis”, pela dificuldade de explicá-los segundo os parâmetros da pesquisa farmacológica dose-dependente, os autores concluíram que os efeitos clínicos da homeopatia são efeitos placebo.

Segundo a racionalidade científica homeopática, os ensaios clínicos homeopáticos deveriam priorizar como “critérios de alta qualidade metodológica” as seguintes premissas: individualização na escolha do medicamento (segundo a totalidade de sintomas característicos), das doses e das potências homeopáticas; período de acompanhamento suficiente para ajustar o medicamento à complexidade da individualidade enferma; avaliação da resposta global e dinâmica ao tratamento com o acompanhamento regular e a aplicação de questionários de qualidade de vida (e não apenas o desaparecimento momentâneo de um ou outro sintoma); etc. (9)

Na metanálise recém-publicada, estes “critérios homeopáticos de alta qualidade metodológica” não foram valorizados, pois apenas 16% dos ensaios clínicos homeopáticos selecionados inicialmente (e nenhum dos oito estudos de melhor qualidade metodológica clássica) respeitavam a “individualização na escolha do medicamento”, constituindo um viés ou erro sistemático de grande magnitude perante a epidemiologia clínica homeopática. A grande maioria dos ensaios clínicos selecionados apresentava desenhos impróprios à “clínica da individualidade”, empregando um mesmo medicamento (44%) ou uma mesma mistura de medicamentos (32%) para uma queixa clínica comum a todos os pacientes.

Tudo indica que esta publicação enviesada segundo as premissas do modelo homeopático, assim como o editorial (“The end of homoeopathy”) e outras duas matérias publicadas na mesma edição do The Lancet, apresentam o intuito implícito de desacreditar a homeopatia cientificamente, em vista da Organização Mundial de Saúde estar em vias de publicar um dossiê completo sobre os trabalhos de pesquisa em homeopatia, que conclui favoravelmente em prol da homeopatia.

Nas últimas décadas, o interesse da população pela homeopatia vem crescendo em todo o mundo, despertando as mais variadas reações na classe médica, (10,11) que anseia por respostas de pesquisadores imparciais aos diversos questionamentos que permeiam esta prática médica bi-secular. Evidenciando esta postura isenta, em contraposição ao preconceito generalizado que muitos homeopatas alimentam contra o meio acadêmico, pesquisadores e epidemiologistas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), comprometidos com a ética científica, foram unânimes em endossar nossa crítica ao trabalho supracitado, questionando a postura sectária dos editores da revista.

Perante este cenário, vimos nos dedicando nos últimos anos ao exercício da criatividade na busca de modelos de pesquisa que fundamentem os pressupostos e a prática clínica homeopática, reconciliando o paradigma científico dominante com o paradigma científico homeopático, respeitando as premissas básicas de cada modelo, suplantando a cristalização dogmática que limita os horizontes do conhecimento humano.

Em nossa tese de doutorado junto ao Departamento de Clínica Médica da FMUSP, (12) estamos trabalhando com modelos de pesquisa clínica homeopática individualizada que visam avaliar, a médio e longo prazos, as implicações do “efeito placebo” e do “efeito consulta” nas melhoras clínicas e subjetivas dos pacientes, fatores aventados em qualquer discussão sobre a eficácia e a efetividade do medicamento homeopático em si. A não observância destes vieses faz com que superestimemos os resultados “rápidos e exclusivos” de nossa prática, que devem ser repensados de forma crítica e ponderada, quando arrogamos poderes ilimitados ao tratamento homeopático.

Como medida de prevenção para se evitar a formação de futuros furacões que possam vir a devastar cidades americanas inteiras, como vimos assistindo ultimamente, nos perguntamos se o ocorrido foi suficiente para sensibilizar os governantes da maior potência mundial a adotarem as medidas lentas e onerosas de preservação da temperatura global propagadas pelo Protocolo de Kyoto?

Como medida de prevenção para se evitar a formação de futuros movimentos contra o modelo científico homeopático, nos perguntamos se o episódio do The Lancet (assim como o do Fantástico no ano passado) foi suficiente para sensibilizar os homeopatas e suas instituições de classe a adotarem medidas lentas e onerosas de incentivo e facilitação à produção de trabalhos científicos de qualidade?

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